Camarote

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Hoje eu estou meio assim, vivendo como se fosse numa redoma de vidro, vendo tudo ao meu redor de camarote. Vejo loucos de todo tipo. Novos com ideologias políticas ultrapassadas, levando o país pra idade das trevas; velhos estressados por coisas mínimas, outros nervosos por causa de parafernálias eletrônicas, que a mão humana ou a razão não consegue resolver. Hoje eu estou meio aéreo, como que vivendo dentro de uma redoma de vidro, vendo tudo e todos ao meu redor. Pessoas malucas, com comportamentos alucinados. A vida é tão lenta, e calma, e ao mesmo tempo tão quente. As peças humanas são postas num enorme tabuleiro, e ela, a vida, fica mexendo os pauzinhos, dando corda, deixando cada individuo ir pra qual direção se sinta impulsionado. Cada vez mais vou chegando a uma convicção que somos avatares numa enorme tela de computador. Estamos na vida para jogar, e sermos “jogados” por alguém. Não sei qual seria o destino final dessa história. Há quem diga que estamos num “Bug”, pois nossa vida está num eterno nascer, viver e morrer. E que precisaríamos reverter o processo, para seguirmos em frente. É muita coisa por debaixo do pano, que não nos deixam aprofundar. E como eu disse, hoje eu estou numa espécie de uma redoma de vidro, vendo tudo ao meu redor. Tantas pessoas nervosas, principalmente por causa do trabalho, já que vivemos um momento difícil na nossa empresa estatal, graças a escolhas políticas mal feitas. A calma é primordial na vida de todos, mas nem sempre temos a escolha desse estilo de viver. Por natureza somos brutos, principalmente por nossos sentidos terem de estar sempre atentos ao que ocorre ao nosso redor, pois nesse nosso jogo computadorizado, a riqueza em contraste com a pobreza, dita todas as regras; até mais por sobre o amor, ou o bem e o mal. Quem tem dinheiro, tem poder, e está acima dos outros. No pensamento nosso, claro; pois os mais fortes, mesmo ricos, não possuem esse mesquinho pensamento. E eu continuo aqui, dentro da minha redoma de vidro, vendo a vida ao meu lado, passando livremente, com pessoas nervosas, calmas, e ou desleixadas com toda essa situação. E eu continuo olhando!

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Em busca da glória

Era domingo, numa daquelas tardes de verão a vapor, com os termômetros na casa dos 32 graus. E os meninos ali, na fila do cinema.
Estavam ansiosos pela estréia que iriam ver! A expectativa era enorme. Enorme também era a fila! Chegava a dobrar o quarteirão! De repente, um táxi pára com uma freada brusca! Dele desce um homem de terno e vai logo falando muito nervoso para os meninos:
– Crianças, crianças, vocês precisam me ajudar! Vocês precisam me ajudar a encontrar a glória! Se eu a encontrar, todos serão felizes!!!
Laupinho pergunta:
– Que glória, moço??
– A glória, guri! Se a encontrar-mos será um degrau a mais na nossa vida! Venham comigo, o táxi está à minha disposição!
Os meninos não entenderam nada. Mas ficar ali, naquela fila enorme, com aquele calor, estava por fora. Entraram no táxi, se espremeram no banco de trás e lá foram eles rodar por todo o bairro em busca da glória!
Lili pergunta baixinho: – Ei gente, quando encontrar-mos a glória, o que faremos?
– Ora Lili, seremos os meninos mais famosos do bairro!
– Vamos ¨sair¨na televisão!
– E ganharemos muito dinheiro!
E o táxi seguia por todos os lugares importantes do bairro; parava, o homem de terno descia e ficava feito louco olhando em todas as direções e gritando e gesticulando:
– Alguém viu a glória?! Eu estou em busca da glória! Você viu a glória?
Os meninos também desciam. Ajudavam as velhinhas e os ceguinhos a atravessarem as ruas; davam trocados para os mendigos, não pisavam na grama, e  muitas outras boas ações. Assim, quem sabe, receberiam a glória!
Quando entraram novamente no táxi, o homem de terno lhes disse, ainda mais nervoso:
– Meninos… acabei de dar um telefonema-chave agora! Com esse telefonema eu acho que a glória não escapa de mim!
– E onde ela está então??? – Pergunta Juliudu.
O homem de terno estende a mão e toca o ombro do taxista. O motorista faz uma manobra de 360 graus e vai à toda velocidade. Será que finalmente os meninos encontrariam a glória?
O relógio marcava 18 horas. O táxi parou defronte a uma igreja. O homem desceu e disse:
– Eis, meninos! O lugar onde encontrarei a glória!
E parecia que o homem estava com toda a razão, pois o local estava cheio de pessoas. Todas bem vestidas. Ele pagou ao taxista e subiu as escadarias da igreja na maior rapidez do mundo. Os meninos foram atrás. Queriam estar bem próximos quando o homem encontrasse a glória!
Quando entraram na igreja viram que todas as pessoas presentes suspiraram aliviadas. E os meninos entenderam que se tratava de um casamento.
– E o padre dizia para o homem de terno:
– Senhor fulano de tal, aceita Maria da Glória como sua esposa?
Os meninos não acreditaram. Sentaram na porta e ficaram a dizer:
– Esse homem deve ser louco, gente. A tal Glória que ele tanto procurava era  a sua noiva! Que história mais complicada!
Eles se levantaram, e quando iam embora aparece novamente o homem:
– Crianças, obrigado por me ajudarem a encontrar a minha Glória! Tem um salão ali do lado da igreja. São meus convidados para a festa!
E os meninos riram à toa e disseram:
– Se não se pode com os loucos, junte-se a eles!!
– E será a nossa glória!!!

Ei pessoal, um abraço. Taí mais uma história de minha autoria que foi publicado no extinto Jornal diário da Tarde de BHz. Era o ano de 1997, num sábado dia 19 de abril. O DT, como era carinhosamente conhecido, abria espaço a novatos aos sábados. Eu era um participante ativo, com histórias infantis, e tirinhas, como a do Rauf, um cachorro em aventuras e desventuras. A ilustração original desse conto no jornal, foi do Son Salvador, e por algum erro de edição, seu nome não foi incluído nessa ilustra. Então fica registrado. Son Salvador ilustrou várias histórias minhas, publicadas no DT. Deixo agora a capa e contra capa do suplemente que fazia parte do DT, Sábado Revista, onde esse material era exibido. Tem inclusive uma tirinha do Biriba, um macaquinho legal, criação e produção do Quinho, excelente cartunista das Gerais.  Continuar lendo

Se Eu Pudesse

Da minha casa eu vejo uma outra casa. São duas da madrugada, e eu estou sem sono.
Da minha casa eu vejo uma outra casa. As luzes ainda estão acesas. E na varanda, dentro de uma gaiola, um passarinho pula incessantemente. De um pedal ao outro. Ele está confuso, pois deveria estar dormindo. Mas as luzes acesas o deixam perturbado.
Ele continua pulando de um lado para o outro. Eu vejo, e nada posso fazer. Eu estou na minha casa, e ele, em outra casa. De repente me vem um pensamento. Eu, falando para o passarinho:
–  Se eu pudesse, com a minha mente, fazer a minha mão, ir até aquela lâmpada, e apaga-la…
Mas não posso, e não consigo fazer isso…
De repente eu ouço o passarinho piar. Piados nítidos chegam até meus ouvidos. A madrugada silenciosa falando com você… Talvez ele esteja me agradecendo, por esse pensamento bom que eu tive para tentar lhe ajudar.
Passarinho, passarinho… tenha força; cante muito, que esse mundo é seu!

Mergulho

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Estou sentado no sofá lendo meu jornal diário… mas minha cabeça,
a mil por hora, não consegue concentrar nas notícias…
Amasso todo o jornal com as duas mãos, fazendo dele uma bola,
e lanço-o em direção à lixeira… erro feio, e ele cai fora… levanto
numa rapidez fora do normal, e lhe tasco um chute…
mas que azar… acerto a bola de folha de jornal, mas meu sapato
vai junto, em direção à vidraça da janela, fazendo-a em mil pedaços…
ponho as mãos na cabeça; que loucura que fiz, penso eu…
me aproximo da janela, e vislumbro um céu todo azul, iluminado por
um sol quente e brilhante… salto, pulo, sem pestanejar… e vou
caindo, caindo, e mil imagens vão se formando na minha cabeça…
tantas, tantas, que eu fico meio perdido…
passa-se mais um segundo, e eu não me lembro de mais nada….
espere… vem agora uma imagem que eu li no jornal agora à pouco…

JOVEM DESPENCA DO 20º ANDAR DE EDIFÍCIO NO CENTRO
DO RIO DE JANEIRO…

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(Essa crônica foi escrita ouvindo a música Lady Don’t Mind da Banda Talking Heads pelo Youtube)

Morrer

trees-261840_1920Morrer…

Deve ser triste que nem uma segunda-feira chuvosa…

Ou uma tarde cinza de domingo; de um domingo que você

espera triste pela segunda-feira… (Você queria que o final de

semana nunca chegasse ao fim)… pois, no outro dia, ter que

enfrentar ruas abarrotadas de carros… milhares de pessoas…

tantos rostos… (Muitos você nunca mais verá pelo resto

de sua vida)…

Que vontade de ficar preso dentro do elevador, a semana

inteira… ou então, nunca desembarcar do ônibus, do Uber,

do táxi, do seu próprio carro; e ficar nessa viagem eterna,

pelas mesmas ruas, mesmas casas, mesmos prédios, mesmas

músicas velhas…

Como uma segunda-feira se parece com um domingo…

Um domingo cinzento, chuvoso e frio…

Mas agora… morrer num dia ensolarado não deve ter

graça nenhuma…

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Visões

– Olha mamãe, ali tem um buraco na camada de ozônio!!
Phillips costuma ver coisas que ninguém vê.
– Já te falei, Phillips; não fale dessas coisas pra todo mundo ouvir. As pessoas não vão te entender!
– Mas mamãe!..
Com o dedo indicador sobre os lábios, ela apenas murmura:
– Shiiiiii!!
Existem muitas pessoas como Phillips mundo afora! E ele ficou sabendo de um caso, que nem
sua familia soube como, que em um país africano, um menino com as mesmas visões, ou
pressentimentos seus, tentou avisar as pessoas sobre um escapamento de gás sob um edifício. Porém, ninguem deu ouvidos, até que o prédio explodisse e viesse abaixo. Ainda
bem que estava em construção, e as vítimas foram poucas.
– As pessoas não entenderiam Phillips!…
Essas eram as conversas em sua casa. Todos queriam preserva-lo, principalmente de
brincadeiras e chacotas.
Desde muito cedo, viram que Phillips era diferente. Tudo começou quando com apenas
cinco anos, Phillips subiu no capô do carro de um vizinho, atrapalhando a sua saída para
o serviço em mais de dez minutos. Tempo suficiente para ele se atrasar em ” pegar ” a alto estrada, e escapar de um acidente envolvendo uma carreta e mais de dez veículos.
Aconteceram outros fatos parecidos como esse num intervalo de um ano. Com isso, eles
ficaram com uma certeza que Phillips era diferente.
Mas o fato mais estarrecedor dessa dádiva ou maldição, foi o dia em que se noticiava na TV,
num telejornal, o acidente de um homem que supostamente caiu de um prédio, e foi
salvo milagrosamente pelo toldo de uma loja.
Na sala de sua casa só se ouvia ” ohs ” e oh meu Deus!!
E Phillips calmamente comenta:
– Impossível acontecer algo de mal com ele. Uma pessoa com duas asas enormes estava
segurando-o em seu colo…

A Vida é Mesmo Complicada

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Depois de longos e tenebrosos meses, os meninos estavam, enfim, de férias! Poderiam
viajar, dormir, e até mais tarde ver mais televisão…
Só que as férias não era um mar de rosas para todos. Principalmente na casa do Laupinho.
A mãe dele vivia dizendo:
– Vai procurar algo útil para fazer, menino! Só pensa em assistir televisão? Você bem
que poderia dar uma aparada no gramado!…
Trabalhar em plenas férias escolares, aí já era demais. Laupinho não quis nem saber.
Foi saindo de fininho e foi lá para o Bar Azul, refrescar as idéias com uma Crush bem gelada.
Como o bar era em uma esquina importante do bairro, todos os tipos de pessoas
passavam por lá.

E Laupinho sozinho numa mesa, no canto, passou a reparar a todos.
Tinha uma senhora com uma criança bem gordinha, que chorava e esbravejava:
– Ah não, mãe, eu não quero mais ser gordo. Na escola, todos ficam me azarando!
Tinha também uma mocinha magrinha, comentando com seu pai:
– Papai, eu preciso engordar uns 10 quilos. Quero ser modelo, mas com esse corpo não
posso. Eu preciso engordar papai, preciso…
Nesse instante entra um homem que vai logo falando para o garçom:
– Rapaz, eu não dou sorte com as mulheres. Elas me acham muito feio. O que eu farei?
Preciso ficar mais bonito, charmoso…
Laupinho arregalou os olhos, e antes que pudesse pensar em algo, ouviu uma
mulher gritando para outra, no passeio:
– Já não aguento mais ser bela, ser bonita. Todos nessa cidade querem namorar comigo.
E eu já tenho namorado. Estou ficando louca; vou acabar perdendo o meu amado.
Já não aguento mais!…
Em seguida, desce um homem de um carro importado e diz para Laupinho:
– Guri, não queira ser rico. Você não terá sossego; todos vão te amolar querendo o
seu dinheiro. Seus parentes, seus amigos; você nunca será feliz!
Na mesmas hora, aparece um mendigo e lhe pede alguns trocados:
– Eu não como há dois dias, moço! Não tenho nem onde morar!
E mais dois jovens falando:
– Cara, estou ficando louco de tanto estudar, minha cabeça não aguenta mais!
E outro mais adiante:
– Preciso estudar mais, melhorar nos estudos, senão vou ficar de recuperação, e se
dar bobeira posso até tomar ” bomba”!
Laupinho mais que depressa tomou a sua Crush, pagou e na saída encontrou Juliudu:
– Vamos sair daqui correndo, Juliudu!
– Por que Laupinho? Parece que viu um fantasma!?
– Ví, sim. E vários!
– E prá onde você vai agora?
– Lá prá casa cortar a grama, você me ajuda?
– Claro!!
E no caminho, Laupinho ainda encontrou um anão que era afim de jogar basquete;
um senhor de mais de dois metros de altura que era infeliz por não encontrar
sapatos número 52; uma mulher que não suportava seu casamento e uma moça que
estava há muito procurando um namorado.
É, Juliudu, não queira entender a vida; ela é mesmo muito complicada!

 

 

Era um sábado, 20 de julho de 1996, que essa história saiu na mídia. Publicada no Extinto Jornal Diário da Tarde, de BHz, Brazil, que como era de praxe, abria espaço para iniciantes, tanto em contos, histórias, como quadrinhos, tirinhas… era o DT Infantil, Revistinha; que contava com a colaboração de anônimos que queriam mostrar seus trabalhos, e tinha também a equipe principal, de apoio, que gerenciava todo esse pequeno, mas grande espaço da cultura underground, se é que posso falar assim. Son salvador, que inclusive ilustrou essa pequena história, Quinho, Melado, eram alguns que auxiliavam essa empreitada semanal. Cito também Chantal, Eduardo, Laura Gomes, Charles Araujo, Pedro Antônio, Alves, e outros que participavam sempre, em colaboração, engrandecendo o espaço. Agradeço ao Diário da Tarde por essas ” oportunidades” de mostrar meus trabalhos. Logo mais publico mais coisas… até mais!!!!

P.S – Na história cito o Bar Azul, que ficava na rua Niquelina, esquina com a praça Floriano Peixoto no bairro Santa Efigênia, em BHz. Esse lugar fez parte da minha infância…