Mergulho

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Estou sentado no sofá lendo meu jornal diário… mas minha cabeça,
a mil por hora, não consegue concentrar nas notícias…
Amasso todo o jornal com as duas mãos, fazendo dele uma bola,
e lanço-o em direção à lixeira… erro feio, e ele cai fora… levanto
numa rapidez fora do normal, e lhe tasco um chute…
mas que azar… acerto a bola de folha de jornal, mas meu sapato
vai junto, em direção à vidraça da janela, fazendo-a em mil pedaços…
ponho as mãos na cabeça; que loucura que fiz, penso eu…
me aproximo da janela, e vislumbro um céu todo azul, iluminado por
um sol quente e brilhante… salto, pulo, sem pestanejar… e vou
caindo, caindo, e mil imagens vão se formando na minha cabeça…
tantas, tantas, que eu fico meio perdido…
passa-se mais um segundo, e eu não me lembro de mais nada….
espere… vem agora uma imagem que eu li no jornal agora à pouco…

JOVEM DESPENCA DO 20º ANDAR DE EDIFÍCIO NO CENTRO
DO RIO DE JANEIRO…

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(Essa crônica foi escrita ouvindo a música Lady Don’t Mind da Banda Talking Heads pelo Youtube)

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Morrer

trees-261840_1920Morrer…

Deve ser triste que nem uma segunda-feira chuvosa…

Ou uma tarde cinza de domingo; de um domingo que você

espera triste pela segunda-feira… (Você queria que o final de

semana nunca chegasse ao fim)… pois, no outro dia, ter que

enfrentar ruas abarrotadas de carros… milhares de pessoas…

tantos rostos… (Muitos você nunca mais verá pelo resto

de sua vida)…

Que vontade de ficar preso dentro do elevador, a semana

inteira… ou então, nunca desembarcar do ônibus, do Uber,

do táxi, do seu próprio carro; e ficar nessa viagem eterna,

pelas mesmas ruas, mesmas casas, mesmos prédios, mesmas

músicas velhas…

Como uma segunda-feira se parece com um domingo…

Um domingo cinzento, chuvoso e frio…

Mas agora… morrer num dia ensolarado não deve ter

graça nenhuma…

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Visões

– Olha mamãe, ali tem um buraco na camada de ozônio!!
Phillips costuma ver coisas que ninguém vê.
– Já te falei, Phillips; não fale dessas coisas pra todo mundo ouvir. As pessoas não vão te entender!
– Mas mamãe!..
Com o dedo indicador sobre os lábios, ela apenas murmura:
– Shiiiiii!!
Existem muitas pessoas como Phillips mundo afora! E ele ficou sabendo de um caso, que nem
sua familia soube como, que em um país africano, um menino com as mesmas visões, ou
pressentimentos seus, tentou avisar as pessoas sobre um escapamento de gás sob um edifício. Porém, ninguem deu ouvidos, até que o prédio explodisse e viesse abaixo. Ainda
bem que estava em construção, e as vítimas foram poucas.
– As pessoas não entenderiam Phillips!…
Essas eram as conversas em sua casa. Todos queriam preserva-lo, principalmente de
brincadeiras e chacotas.
Desde muito cedo, viram que Phillips era diferente. Tudo começou quando com apenas
cinco anos, Phillips subiu no capô do carro de um vizinho, atrapalhando a sua saída para
o serviço em mais de dez minutos. Tempo suficiente para ele se atrasar em ” pegar ” a alto estrada, e escapar de um acidente envolvendo uma carreta e mais de dez veículos.
Aconteceram outros fatos parecidos como esse num intervalo de um ano. Com isso, eles
ficaram com uma certeza que Phillips era diferente.
Mas o fato mais estarrecedor dessa dádiva ou maldição, foi o dia em que se noticiava na TV,
num telejornal, o acidente de um homem que supostamente caiu de um prédio, e foi
salvo milagrosamente pelo toldo de uma loja.
Na sala de sua casa só se ouvia ” ohs ” e oh meu Deus!!
E Phillips calmamente comenta:
– Impossível acontecer algo de mal com ele. Uma pessoa com duas asas enormes estava
segurando-o em seu colo…

A Vida é Mesmo Complicada

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Depois de longos e tenebrosos meses, os meninos estavam, enfim, de férias! Poderiam
viajar, dormir, e até mais tarde ver mais televisão…
Só que as férias não era um mar de rosas para todos. Principalmente na casa do Laupinho.
A mãe dele vivia dizendo:
– Vai procurar algo útil para fazer, menino! Só pensa em assistir televisão? Você bem
que poderia dar uma aparada no gramado!…
Trabalhar em plenas férias escolares, aí já era demais. Laupinho não quis nem saber.
Foi saindo de fininho e foi lá para o Bar Azul, refrescar as idéias com uma Crush bem gelada.
Como o bar era em uma esquina importante do bairro, todos os tipos de pessoas
passavam por lá.

E Laupinho sozinho numa mesa, no canto, passou a reparar a todos.
Tinha uma senhora com uma criança bem gordinha, que chorava e esbravejava:
– Ah não, mãe, eu não quero mais ser gordo. Na escola, todos ficam me azarando!
Tinha também uma mocinha magrinha, comentando com seu pai:
– Papai, eu preciso engordar uns 10 quilos. Quero ser modelo, mas com esse corpo não
posso. Eu preciso engordar papai, preciso…
Nesse instante entra um homem que vai logo falando para o garçom:
– Rapaz, eu não dou sorte com as mulheres. Elas me acham muito feio. O que eu farei?
Preciso ficar mais bonito, charmoso…
Laupinho arregalou os olhos, e antes que pudesse pensar em algo, ouviu uma
mulher gritando para outra, no passeio:
– Já não aguento mais ser bela, ser bonita. Todos nessa cidade querem namorar comigo.
E eu já tenho namorado. Estou ficando louca; vou acabar perdendo o meu amado.
Já não aguento mais!…
Em seguida, desce um homem de um carro importado e diz para Laupinho:
– Guri, não queira ser rico. Você não terá sossego; todos vão te amolar querendo o
seu dinheiro. Seus parentes, seus amigos; você nunca será feliz!
Na mesmas hora, aparece um mendigo e lhe pede alguns trocados:
– Eu não como há dois dias, moço! Não tenho nem onde morar!
E mais dois jovens falando:
– Cara, estou ficando louco de tanto estudar, minha cabeça não aguenta mais!
E outro mais adiante:
– Preciso estudar mais, melhorar nos estudos, senão vou ficar de recuperação, e se
dar bobeira posso até tomar ” bomba”!
Laupinho mais que depressa tomou a sua Crush, pagou e na saída encontrou Juliudu:
– Vamos sair daqui correndo, Juliudu!
– Por que Laupinho? Parece que viu um fantasma!?
– Ví, sim. E vários!
– E prá onde você vai agora?
– Lá prá casa cortar a grama, você me ajuda?
– Claro!!
E no caminho, Laupinho ainda encontrou um anão que era afim de jogar basquete;
um senhor de mais de dois metros de altura que era infeliz por não encontrar
sapatos número 52; uma mulher que não suportava seu casamento e uma moça que
estava há muito procurando um namorado.
É, Juliudu, não queira entender a vida; ela é mesmo muito complicada!

 

 

Era um sábado, 20 de julho de 1996, que essa história saiu na mídia. Publicada no Extinto Jornal Diário da Tarde, de BHz, Brazil, que como era de praxe, abria espaço para iniciantes, tanto em contos, histórias, como quadrinhos, tirinhas… era o DT Infantil, Revistinha; que contava com a colaboração de anônimos que queriam mostrar seus trabalhos, e tinha também a equipe principal, de apoio, que gerenciava todo esse pequeno, mas grande espaço da cultura underground, se é que posso falar assim. Son salvador, que inclusive ilustrou essa pequena história, Quinho, Melado, eram alguns que auxiliavam essa empreitada semanal. Cito também Chantal, Eduardo, Laura Gomes, Charles Araujo, Pedro Antônio, Alves, e outros que participavam sempre, em colaboração, engrandecendo o espaço. Agradeço ao Diário da Tarde por essas ” oportunidades” de mostrar meus trabalhos. Logo mais publico mais coisas… até mais!!!!

P.S – Na história cito o Bar Azul, que ficava na rua Niquelina, esquina com a praça Floriano Peixoto no bairro Santa Efigênia, em BHz. Esse lugar fez parte da minha infância…

UM DIA QUALQUER

Sem Título-1

Céu azul
Sol quente.
Brisa leve
Que afaga
O cabelo
Da menina.

Um chopp
No calçadão
Com beijos
Pra tremer o coração

De longe o mar
E um solitário barco
A dançar
No vai e vem das ondas.
Quisera meu pensamento
Ser agora
Uma gaivota
A mergulhar
Bem no fundo do mar,
E um peixe abocanhar,
Para em seguida
Bem do alto,
Deixa-lo cair
Novamente no fundo
Do oceano.

Quero deixar
Livre a natureza
A seguir seu curso
Que desenrola,
Desde que o mundo é mundo

Pois, dessa vida
Quero paz
Dinheiro, diversão
E um amor
Pro coração.

 

Fernão-Capelo-Gaivota

O Meu Mundo Ainda Não Está Pronto

Quatro pedras de gelo caem dentro do copo, que é inundado por um líquido de cor
ocre, com um cheiro e gosto que remete ao puro malte.
Acho que já era o terceiro ou quarto… nem sei mais!…
Sei que ainda continuo sentado no sofá, de olho na TV, que está desligada; mas
meu entretenimento vem de uma velha vitrola que está a rolar um vinil de uma
banda inglesa dos anos 60. O relógio na parede continua sem pilhas, e marcando
a mesma hora, o tempo todo. Aqui dentro o tempo estacionou. Não sei mais que
dia da semana, mês ou ano me encontro. Tranquei todas as portas e janelas; e
quebrei as chaves. Desliguei a campanhia e apaguei todas as luzes. Estou
invisível, totalmente para o mundo!
Mas… me esqueci de um detalhe. O velho telefone demodê num canto da sala,
que começou a tocar insistentemente. Tocou até parar. E foi asssim por
infinitas vezes.
Por fim, pulo do sofá e resolvo atendê-lo: – (com uma voz bem calma) Alô!?
– Alô Baby, que vontade de te ver!…
– Patty??
– Claro amorzão!… Tô aqui no clube… ‘tá um dia lindo, sol quente, cheio de
pessoas lindas, maravilhosas… vem prá cá!!
– Claro amor! Vou tomar uma ducha e daqui a meia hora estarei aí! Te amo, beijos!
– Te amo também!!

kurt

 

Chovia torrencialmente sobre Seatle. Kurt acabara de chegar em casa, sem saber
de onde teria vindo. Desde a tarde, tomava umas, umas, umas, e outras.  Parecia que
sua cabeça iria explodir! Por um instante, parecia que Kurt havia visto o vulto
de Courtney. Mas não ligou muito; seria apenas mais uma miragem. Kurt ligou seu som, 
remexeu em uma instante, e pegou alguns CD’s. As músicas iam rolando, e Kurt ia
ficando inquieto. Às vezes ouvia vozes sussurando em seus ouvidos:
– Frances não o ama, ela não o acha capaz para que seja chamado de pai!
– Courtney não lhe quer mais!…
– O sucesso vai te colocar contra todos…
Kurt não aguentava mais. Ou estava ficando louco ou quem sabe no inferno!
De repente, detrás da estante de CD’s, surge um duende de aproximadamente 45 cm
de estatura. Era horripilante, escamoso, meio esverdeado. E ele tinha um sorriso
sarcástico. Ele também tinha duas armas. E foi logo falando:
Tudo bem Kurt? Será que sua alma está em paz?
Kurt responde:
– Vai-te embora, você é apenas fruto da minha imaginação…
– Que isso Kurt! Você sabe que eu sou real! Eu estou aqui. E vamos ouvir músicas
juntos ou não?!
Kurt grita com as mãos sobre os olhos:
– Não, eu não quero! Quero ficar sozinho. Vá embora!!
– Certo Kurt, eu irei; mas só se você topar entrar em um jogo…
– Que jogo??
– Roleta Russa! Primeiro eu, depois você!
– Certo! Qualquer coisa, mas depois vá embora!
O duende aponta a arma para a sua própria cabeça, aperta o gatilho e TAC! Estava
a salvo! Agora seria a vez de Kurt, que faz o mesmo. Fecha os olhos…
Mas nesse instante aparece dezenas de imagens de pessoas amigas, dizendo:
– Não faça isso Kurt, não Kurt, não faça isso!
Kurt para por um instante; tenta voltar atrás. Mas Courtney aparece
numa nuvem de fumaça e lhe diz:
– Vamos Baby, o que está esperando?! Acabe logo com isso!!
Enquanto isso lá fora a chuva passara. Agora só havia uma forte neblina.
Corujas e morcegos, carros velozes e um forte vento dominava a noite.
Nada poderia tirar aquela tranquilidade.
Ei espere; ouve-se um estampido, um tiro. Mas foi só um tiro!
Tudo voltou ao normal de novo!!

Kurt Cobain

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